Igreja Abacial do Mosteiro da Virgem

“Todo espaço sagrado é um microcosmos em si, que transfigura os elementos da própria natureza, dando ao local uma conotação de novo, separado, puro. O espaço da celebração dá-nos a possibilidade de recomeçar...de renascer”.

Nossa Igreja

por | fev 19, 2019

Eis a tenda de Deus com os homens” (Ap 21,3)

O tema da Tenda definiu esse edifício cristão: É a morada de Deus conosco” (Ap 21,3).

Suas “duas asas” do telhado, dão-nos a ideia de acolhimento e intimidade. Quer ser RUAH (= sopro, Espírito) da Criação com as grandes asas que pairavam sobre as águas e geraram a vida. Essas asas são sinal de Maternidade. É também a Tenda Peregrina de um Deus que caminha conosco no deserto da vida rumo à Pátria Celeste. Por sua forma podemos fazer referência, ainda, à Arca de Noé e à Arca da Aliança.

 

Vem, vou mostrar-te a noiva, a esposa do Cordeiro” (Ap 21,9).

Esse espaço é a Nova Jerusalém em terras de Petrópolis. É um espaço organizado, harmonioso e que quer refletir a unidade do Deus que aí se celebra. “Cidade Quadrangular” (Ap 21, 16), é um sinal de perfeição, sinal sensível, aqui e agora, do Paraíso aberto pelo Cristo. Aí, os assinalados na fronte e que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro (os batizados), o louvam dia e noite (Ap 7, 3.14-15). Aí, a Assembleia (Igreja), qual esposa adornada, celebra o Esposo e aguarda sua vinda definitiva.

 

O Cordeiro Pascal (vitral âmbar de 2,50m de diâmetro, sobre o pórtico de entrada).

Não mais o sol, nem as estrelas, mas o Cordeiro é a Luz e o guia da comunidade cristã (Ap 21,23). Ele é o Senhor imolado, mas vitorioso, digno de louvor eternamente.

O âmbar, luz dourada, é a Luz deífica.

 

O Santuário (ou Presbitério)

Tem a forma sinagogal onde os fieis o envolvem em forma de U. Sua disposição está apta para os dois grandes momentos que aí se passam: o de Magistério e Louvor (1ª parte da Missa) e o de Sacrifício e Banquete Eucarístico (2ª parte da Missa).

 

“Eu sou o Primeiro e o último, o Vivente, estive Morto, mas eis que Vivo pelos séculos”. (Ap 1,17)

Esta frase no piso, em torno do Altar, dá o sentido da celebração cristã: o Memorial Pascal.

 

O Altar (de granito róseo de Salto/SP, pedra maciça de 3,5 toneladas).

O Altar é Cristo. O centro do edifício cristão e o centro do Cosmos. A rocha firme e inabalável, da qual fomos talhados (Is 51,1). A pedra angular do “edifício de pedras vivas” (I Pd 2,5-7). O Coração do Corpo Místico.

A Relíquia

Sob o Altar, na frente, encontra-se uma pequena lápide com a inscrição: “Dos ossos do Apóstolo Paulo”. O verdadeiro Trono do Senhor sempre foi o coração do cristão e, sobretudo, os restos mortais dos que testemunharam até com o próprio sangue. Em toda a tradição cristã, a celebração da Missa, em Igrejas consagradas, tem sido sob relíquias de mártires.

 

O Crucifixo (Cristo de bronze, 0,6m de altura e cruz de ferro batido).

A Cruz é sinal da Árvore da vida (Gn 2,9), que o Senhor nos conquistou com sua Morte e Ressurreição, abrindo-nos as portas da Jerusalém Celeste, do Paraíso, qual novo Adão (I Cor 15,21).

- Faz referência à serpente de bronze, conforme o livro dos Números (21,9).

- Solene, faz referência à “sua obediência até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8), pela qual “Deus o sobreexaltou e o agraciou com o Nome que é sobre todo nome” (2,9-11).

 

O Ambão (granito róseo)

É o lugar do “Verbum” (a Palavra) na Assembleia. Aí o Senhor guia com sua Palavra o dia monástico. Aí o Evangelho e as leituras são proclamados pelo próprio Senhor que nos fala. Ocupa o “meio” da Assembleia, lugar de destaque que convoca a assembleia à conversão e à reflexão, segundo o magistério da Igreja. Em forma piramidal, anuncia catolicamente aos 4 cantos do Cosmos, lembrando também o Monte Sinai, onde foi promulgada a Lei divina.

 

A Presidência

Cubos de granito róseo, dando destaque, no centro, ao Celebrante, o “Alter Christus”.

 

A Virgem (bronze, 1,20m de altura)

Ela é a Theotokos (= Mãe de Deus), trazendo Deus em seu seio.

Mãe de Cristo e da Igreja. Este templo é a ela dedicado.

No silêncio, olhos baixos, contempla o mistério que encerra em si.

É a Virgem Imaculada Conceição. Escolhida desde a Criação para pisar a serpente (Gn 3,15). O seu pé direito faz alusão ao caminhar e esmagar a serpente.

Suas mãos orantes indicam a grandeza do Mistério.

Em sua cabeça e nos ombros, ela tem estrelinhas que, segundo a tradição, indicam sua virgindade antes, durante e depois da Encarnação do Verbo.

A Menorah

 Candelabro de sete braços (Ex 25,31-40). Corresponde à própria imagem de Deus, é símbolo da presença do Senhor, Luz plena (o nº 7 significa plenitude). As sete lâmpadas de azeite puro de olivas deviam arder continuamente diante do Senhor, no Tabernáculo da Antiga Aliança (Lv 24,2-4). Em uma de suas visões, Zacarias ouve do anjo do Senhor estas palavras: “Estas sete lâmpadas são os olhos do Senhor que percorrem toda a terra” (Zc 4,10).

Deus é a minha luz em cima da minha cabeça, embaixo de mim, à direita, à esquerda, na minha frente, nas minhas costas e no meu coração.

 

A Pia de Água Benta (granito róseo)

Imagem da Fonte da Vida, indica-nos a purificação (penitência) antes de qualquer ritual e, sobretudo, lembra-nos o Batismo, quando aí nos persignamos com o Sinal da Cruz.

Esta fonte é sinal da vida nova que nos vem do lado aberto do Cristo (Jo 19,34), assim como a água que saía do lado direito do Templo, na visão de Ezequiel (47,1). A santidade do Senhor inunda a todos e a tudo.

As Quatro Cruzes da Consagração

Assim como o Altar é ungido com o óleo do Crisma, isto é, torna-se Cristo (=ungido), escolhido, separado, imunizado, Único, também os 4 lados deste espaço serão santificados com a unção das paredes. As velas acesas revelam o lugar como partícipe da própria Luz do Senhor, Luz do mundo (Jo 8,12).

 

Capela do Santíssimo

O Altar (granito róseo) é redondo como sinal de perfeição e unidade. É o lugar da comunhão de todos num só corpo com Cristo.

O Tabernáculo (bronze e latão) – sua forma lembra-nos, mais uma vez, “A Tenda de Deus conosco” e a Arca da Aliança. Possui 8 placas de bronze, com as seguintes incisões:

- porta – o monograma de Cristo ☥ com um favo de mel e peixe, alimento que o Ressuscitado comeu com os discípulos, após lhes desejar a paz (Lc 24,42);

- em cima – o cervo é sinal da presença do Esposo junto da Esposa (Igreja) – (Ct 2,7) e da alma sedenta de Deus;

- lateral esquerda – Rute (cap. 2), a pobre moabita, respigando um resto de trigo, é a avó do rei Davi, da qual descenderá o Pão da Vida;

- Em cima – o girassol, flor que só tem vida voltada para a luz;

- lateral direita – o profeta Elias e o Anjo do Senhor, que lhe traz pão e água para o confortar na caminhada do deserto (I Rs 19,7);

- em cima – as armas de Melquisedeque (Gn 14,18), sacerdote e guerreiro de Jerusalém (cidade da Paz);

- Lateral oposta à porta – o “Bom Pastor” (Jo 10,11), Aquele que dá a vida por suas ovelhas w lhes prepara a mesa (Sl 22);

- em cima – o próprio Senhor se dá a imagem de Videira: “Eu sou a Videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e Eu nele, produz muito fruto” (Jo 15,5).

A lâmpada do Santíssimo – É a pomba da Epíclese Eucarística, Luz da Comunidade. Num movimento de Epíclese, de “sobrevoar” as espécies eucarísticas, é que o pão e o vinho se transformam no Corpo e Sangue do Senhor.

 

Capela de São Bento e Santa Escolástica

“O milagre de Escolástica, irmã de Bento”, do 2º livro dos Diálogos de São Gregório: “mais pôde quem mais amou”.

A Cruz de Cristo, como báculo na mão do Patriarca dos Monges do Ocidente, une as auréolas dos irmãos. São Bento tem na mão a Santa Regra com a frase “Per Ducatum Evangelii” (guiados pelo Evangelho), sentido do monaquismo beneditino.

 

PAINEL DA ÁBSIDE DA IGREJA ABACIAL DO MOSTEIRO DA VIRGEM

9m de altura por 4m de largura. Mural realizado com tintas “pigmento terra” alemães e inglesas à base de água, cola branca e fixador matte americano (acrílico).

“Então abriu-se o Templo de Deus, que está no céu, e ali apareceu a Arca de sua Aliança. Houve relâmpagos, trovões, terremotos...” (Ap 11,19).

Esses relâmpagos e trovões, expressos no forte colorido, fazem aparecer diante de nossos olhos – verdadeira revelação – como que uma tapeçaria a se desenrolar, de alto a baixo, e a cair no meio de nós, introduzindo no nosso terra-a-terra cinzento o próprio céu. O painel é apenas uma figura do que se torna realidade, cada dia, sobre este altar, durante a Celebração Eucarística.

 

Eu Renovo todas as coisas” (Ap 21,5)

Frase que se lê no pequeno Evangeliário que está na mão esquerda do Cristo e sintetiza todo o painel: se com Adão e Eva a humanidade perde o paraíso, com o Cristo, novo Adão, a humanidade recupera o paraíso.

 

KYRIOS: O Senhor

Dominando todo o painel e a Igreja, o Cristo Pantocrator é o Senhor (Ap 1,8). A vida monástica e cristã é cristocêntrica. Ele nos revela o Pai e d’Ele nos vem o Espírito Santo. Ele é o Senhor do Cosmos e de toda a Igreja Universal, simbolizada pelas 7 estrelas em sua mão direita e as 7 lâmpadas que O rodeiam (Ap 2,1). Ele é o Verbo Encarnado: Deus e Homem. Como na visão do Apocalipse, Ele aparece ora sentado no Trono (3,21), ora como o Cordeiro – vitral (5,6). Todo o conjunto reluz como pedras preciosas, metais, relâmpagos. As cores chapadas e fortes no Seu rosto, mãos e pés querem nos falar dessa visão.

Como fundo de todo o painel estão as cores do Arco-íris, sinal da Aliança de Deus conosco nesse local (Gn 9,12-13). As cores se intensificam com grande luminosidade no centro, pois “Ele é a Luz do mundo” (Jo 8,12). Este centro forma uma mandorla (nimbo em forma de amêndoa), indicando “coisa preciosa”.

Novo e Eterno Sacerdote

Cristo é o Novo e Eterno Sumo Sacerdote (cf Hb 3,1; 4,15; 12,24). Por isso, Ele tem as vestes sacerdotais com casula e estola. A estola é sinal de autoridade e mediação entre o Céu e a Terra. A estola em forma de escada faz referência à escada de Jacó: nesse lugar, nessa pedra, (o Altar) há uma escada invisível em que os anjos do Senhor sobem e descem num intercâmbio entre as coisas do Alto e as da Terra (Gn 28,12). Nas extremidades da estola, como na grande porta da entrada, o Alfa e o Ômega (princípio e fim) (Ap 1,8).

A sua Majestade e Senhorio na atitude de estar sentado revela-nos a sua realeza e consequente nobreza dos cristãos. “Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (Cl 1,18).

 

“A Mão de Deus Pai” e “o Casario” em torno do Cristo

No mais alto do Painel a Mão de Deus Pai (única representação possível do Pai) está nos oferecendo o Seu Filho (Deus e Homem) que vem fazer história conosco, dando origem (a partir das suas chagas) à Igreja.

As muitas casas atrás e nas laterais do Cristo correspondem à Jerusalém Celeste, isto é, à Igreja, querendo fazer referência às Palavras do Senhor: “Na Casa de meu Pai há muitas moradas”. (Jo 14,2)

“A grande palmeira: tamareira”

Eis a árvore da vida que o Cristo conquistou-nos com sua Cruz. Essa planta é sinal de oásis num deserto. Indica vida. Onde existe a tamareira há água e o alimento do seu fruto. Este lugar agora é um oásis no deserto da vida. É o lugar do repouso por excelência, o Dia do Senhor, o lugar da Unidade. “O justo florescerá como a palmeira” (Sl 91,13).

 

“Adão e Eva”

À esquerda, no alto, vêem-se Adão e Eva que deixam o Paraíso. É o pecado original que a humanidade carrega (Gn 3,23).

 

“A Nova Eva”

À direita, Maria, com o Filho. “Uma mulher vestida de sol, tendo a lua sob os pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. (Ap 12). Tanto no Gênesis (3,15) como no Apocalipse, o Senhor já faz referência à mulher, Maria, e à Igreja, por meio de quem vem o Salvador, Novo Adão, recuperar a humanidade.

 

“São José e o Arcanjo Miguel”

Figuras à esquerda e à direita do Cristo e da Jerusalém Celeste, são os patronos da Igreja.

São José, o justo, é o guardião da Sagrada Família e da Igreja.

Miguel (“Quem como Deus?”), o Arcanjo que com sua lança subjuga o dragão que deseja comer o Filho da Mulher (o Cristo e os cristãos), é também o patrono defensor da Igreja (Ap 12,4-18).

 

“O Esposo e a Esposa do Cântico dos Cânticos”

“Quem é essa que sobe do deserto apoiada no Seu Amado?” (Ct 8,5).

À esquerda, o Esposo (o Cristo) conduz pela mão a Esposa (a Igreja) até o jardim, até à casa do Pai, e ambos se sentem irmãos (sinal de um amor desinteressado). O Esposo já se encontra na Luz. A Esposa, n’Ele apoiada, ainda está a caminho.

Ao redor, atributos de elogio que o Amado diz à Amada:

Uva, sinal do Mistério Presente, a Divindade (Mt 26,29).

Romã, fruta símbolo da vida (Ct 4,6 e 8).

Maçã, símbolo do Amor (Ct 2,5 e 7,9).

Pomba, ave frágil nas fendas das rochas onde aparecem serpentes venenosas (Ct 2,14).

 

“O Rei Davi”

À direita, tocando harpa, canta os louvores do Senhor (I Sm 18,10).

Alusão ao Ofício Divino, que as monjas aí cantam 7 vezes ao dia (Sl 118,164). “Na presença dos anjos, a Vós eu canto” (Sl 137,1).

“Os 4 Rios da Vida”, o Espírito Santo e “as Duas Oliveiras”

Sob o Trono do Senhor (como do Cordeiro e do Altar) saem os quatro grandes rios da vida (Gn 2,10), que inundam e fertilizam os quatro cantos da terra (Ez 47,1-12). Na antiguidade correspondiam aos rios Tigre, Eufrates, Ganges e Nilo. Agora, é do lado direito do Cristo (Jo 19,34) que saem os rios de água viva, e o mundo, mas sobretudo os cristãos, bebem dessa fonte como a ovelha e o cervo, bem na base do painel. Essas águas correspondem ao Espírito Santo, fluindo do Pai e do Filho sobre a humanidade. “Quem crê em mim, de seu seio jorrarão rios de água viva. ‘Ele falava do Espírito que receberiam os que n’Ele cressem’”. (Jo 7,38)

As Duas Oliveiras

Conforme o capítulo 6 do Apocalipse, parecem fazer referência não só a Pedro e a Paulo mas aos mártires que, como as olivas, têm as suas vidas trituradas e alimentam assim a lâmpada do Senhor.

“Pedro e Paulo”

À esquerda e à direita, bem na base do painel, são os fundamentos da Igreja Apostólica, juntamente com os demais Apóstolos.)

“Tú és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18).

“A muralha da Cidade tem doze alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (Ap 21,14).

Cláudio Pastro (in memoriam)