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CAPÍTULO I – REPARAÇÃO DO CRIVO QUEBRADO

Capítulo 1.1 - Vida e Milagres de São Bento

“Deixando, pois, as humanidades, resolveu procurar um lugar ermo, seguido apenas pela aia, que o amava com ternura. Chegaram, assim, a certa localidade chamada Enfide, onde, entretidos pela caridade de muitos homens de virtude, ficaram morando junto à igreja de S. Pedro Apóstolo. Um dia, a ama pediu às vizinhas que lhe emprestassem um crivo para limpar o trigo; tendo-o, porém, deixado descuidadamente sobre a mesa, o crivo caiu e se quebrou, ficando partido em dois pedaços. Logo que voltou e o encontrou nesse estado, a mulher começou a chorar muito, aflita por ver quebrada a vasilha que tomara de empréstimo. Quando, porém, o piedoso e bondoso jovem Bento encontrou a ,ama chorando, compadecido da sua dor, pegou os dois cacos do vaso, e, levando-os consigo, entregou-se à oração com lágrimas. Quando se ergueu da oração, viu junto de si o crivo de tal forma íntegro que nenhum vestígio se podia descobrir da fratura. Então, pronta e carinhosamente consolou a ama, devolvendo-lhe são o vaso que levara em cacos.

Este fato passou ao conhecimento de todos os habitantes do lugar, e foi tido em tanta admiração que penduraram à porta da igreja o crivo restaurado, a fim de que os contemporâneos e os pósteros todos ficassem sabendo em que grau de perfeição o jovem Bento principiara a graça da vida monástica. A vasilha ficou por muitos anos exposta aos olhares de todos, pendendo à parta da igreja até estes tempos dos Lombardos.

Bento, porém, mais apetecendo os maus tratos que os louvores do mundo, e preferindo fatigar-se de trabalhos por Deus a ser alçado pelos favores desta vida, fugiu ocultamente da ama e foi dar a um retiro deserto no lugar denominado , distante de Roma cerca de quarenta milhas. Aí brota uma água fresca e transparente, que, correndo com abundância, primeiro forma um grande lago, do qual deriva, afinal, um rio.

Quando para ali se encaminhava em fuga, encontrou certo monge de nome Romano, que lhe perguntou aonde ia. Ciente do seu desejo, não só guardou segredo mas ainda lhe prestou ajuda e deu o hábito do monacato, servindo-o no que podia.

Chegado a tal lugar, o homem de Deus recolheu-se à apertadíssima gruta, onde morou três anos ignorado de todos, excetuado o monge Romano. Este último vivia num mosteiro próximo, sob a regra do abade, a cujo olhar piedosamente furtava algumas horas para levar a Bento, em determinados dias, a parte de pão que conseguira subtrair ao próprio consumo. Não havia caminho do mosteiro de Romano à gruta, por causa de alto rochedo que em cima da gruta fazia saliência ; mas Romano, do alto dessa pedra, costumava fazer descer o pão pendurado a uma corda comprida a que prendera uma campainha para que o homem de Deus, ao ouvir-lhe o toque, soubesse que era a hora de baixar o alimento, e saísse a tomá-lo.

Capítulo 1.2 - Vida e Milagres de São Bento
Cap. 1.3 - Vida e Milagres de São Bento

Um dia, porém, o antigo inimigo, invejando a caridade de um e a refeição do outro, quando viu descer o pão, jogou uma pedra e quebrou a campainha. Romano, não obstante, não desistiu de prestar por meios aptos o seu serviço.

No entanto, Deus todo-poderoso queria, de um lado, descansar Romano do trabalho, e, doutro lado, exibir aos homens, para exemplo, a vida de Bento, a fim de que brilhasse como lâmpada sobre o candelabro, iluminando todos os que estão na casa. Por isto, o Senhor dignou-se de aparecer a certo presbítero que morava longe e acabava de preparar, no dia de Páscoa, a própria refeição; disse-lhe: “Preparas delícias para o teu próprio gozo, enquanto o meu servo em tal lugar é atormentado pela fome’.” O sacerdote levantou-se imediatamente e no próprio dia da solenidade de Páscoa, com os alimentos que para si preparara, saiu na direção indicada, procurando o homem de Deus através dos montes escarpados, pelos vales e fossas do terreno, até que o achou escondido na gruta. Depois de rezarem, assentaram-se bendizendo a Deus todo-poderoso; após suaves colóquios sobre a vida eterna, o recém-vindo disse  estas palavras: “Eia, tomemos alimento, porque hoje é Páscoa. Respondeu-lhe o homem de Deus: “Sei que é Páscoa, pois mereci a graça de te ver”.

Morando longe dos homens, Bento ignorava que a solenidade pascal era naquele dia; más o venerável presbítero de novo lho asseverou: “Em verdade hoje é Páscoa, o dia da Ressurreição do Senhor. De modo nenhum te fica bem jejuar, pois aqui fui mandado justamente para que juntos partilhemos as dádivas de Deus todo poderoso” . Louvando, pois, o Senhor, tomaram alimento; e, finda a refeição e o colóquio, voltou o padre para a sua igreja.

Por esse mesmo tempo também alguns pastores o encontraram escondido na caverna. Vendo-o entre arbustos, vestido de peles, julgaram a principio que fosse um animal selvagem; mas, quando ficaram conhecendo o servo de Deus, muitos se converteram da sua mente animal para a graça de uma vida piedosa. Assim o nome de Bento tornou-se conhecido pelos arredores; já desde então Bento começou a ser visitado por muitos que, trazendo-lhe a refeição para o corpo, levavam, em troca, nos corações, o alimento de vida que procedia dos lábios do santo.