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CAPÍTULO XXXIII – O MILAGRE DE ESCOLÁSTICA, IRMÃ DE BENTO

Cap. 33 - Vida e Milagres de São Bento
Gregório: “Pedro, quem será nesta vida mais sublime do que Paulo, o qual três vezes rogou ao Senhor que o livrasse do aguilhão da carne, e, contudo, não pôde obter o que queria (2 Cor 12,7-9) ; devo, por isto, contar-te que houve coisa que o venerável Pai Bento não pôde alcançar.

A irmã de Bento, de nome Escolástica, consagrada desde a infância a Deus onipotente, tinha o costume de visitar o irmão uma vez por ano; o homem de Deus descia a recebê-la numa propriedade do mosteiro, não longe da portaria. Foi ela, pois, um dia, como de costume, e seu venerável irmão, acompanhado de alguns discípulos, desceu a vê-Ia. Passaram o dia todo em louvores de Deus e em santos colóquios, e, ao caírem as trevas da noite, juntos tomaram alimento. Quando ainda estavam à mesa, enquanto o tempo entre santas conversações avançava a uma hora tardia, a monja irmã de Bento rogou-lhe o seguinte: “Peço-te, irmão, que não me deixes esta noite, para podermos falar até a manhã das alegrias da vida celeste.” Ao que ele respondeu: “Que é que dizes, irmã? Ficar fora do mosteiro, de modo nenhum o posso!” Até esse momento a serenidade do céu era tal que nenhuma nuvem aparecia nos ares; quando, porém, a monja ouviu a recusa do irmão, cruzou as mãos sobre a mesa e nelas declinou a cabeça para rogar a Deus todo-poderoso. Ora, logo que levantou da mesa a cabeça, tão violentos relâmpagos e trovões e tão copiosa chuva explodira que nem o venerável Bento nem os irmãos que com ele se achavam, puderam mover o pé do limiar do recinto em que estavam. A monja, com efeito, ao reclinar a cabeça nas mãos, derramara sobre a mesa rios de lágrimas, mediante as quais conseguiu transformar em tempestade a serenidade do tempo. E não tardou o aguaceiro a seguir-se à oração; mas, ao contrário, tão perfeita foi a simultaneidade da prece e da tempestade, que Escolástica ergueu a cabeça já ao irromper da trovoada, de modo que num só instante se deram o levantar da cabeça e o desabar da chuva. Vendo, então o homem de Deus que não podia voltar ao mosteiro no meio dos raios e trovões e da grande enxurrada, começou a lastimar-se entristecido, dizendo: “Que Deus todo-poderoso te perdoe, irmã! Que
fizeste?” E ela: “Eis que te roguei, e não me quiseste ouvir; roguei, então, ao meu Senhor e Ele ouviu-me. Agora, pois, se podes, sai, deixa-me e volta para o mosteiro”. De fato, não podendo sair, aquele que espontaneamente não quis ficar, teve de permanecer contra a vontade. Assim aconteceu que passaram toda a noite em vigília, e se saciaram mutuamente em santas conversas sobre a vida espiritual.

Por isto disse eu que Bento quis alguma coisa, mas não a pôde; pois, se consideramos a mente do venerável homem, é fora de dúvida que ele queria continuasse o bom tempo que fazia quando desceu, mas, contra seu desejo, o que encontrou foi esse milagre de Deus onipotente consoante a um coração de mulher. E não é de admirar que a mulher, cujo desejo era ver o irmão por mais tempo, mais tenha podido do que este, pois, já que segundo a palavra de João “Deus é caridade” (1 Jo 4,16), é justo dizer-se que mais pôde aquela que mais amou.

Pedro: “Confesso que me agrada muito o que dizes.”